...And I didn’t like what I saw... Sim leitores! No mês passado diversas cidades do país, majoritariamente nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, sofreram com uma versão tupiniquim do dilúvio. Sendo que essa versão, diferentemente daquela descrita por Moisés, não envolveu a ira de Deus sobre a população mundial (ao menos Ele não reivindicou a autoria desses atos até agora). Na verdade a nossa versão do dilúvio consiste em dois fatores principais, bem simples de serem entendidos. O primeiro está relacionado ao volume anormal de chuvas que sobrevieram às regiões atingidas durante o período das inundações. Claro, como todos sabem, esses fenômenos metereológicos são cíclicos na natureza, ou seja, há momentos em que eles se intensificam acima da média histórica e, em outros momentos, são mais brandos que a média histórica, repetindo o mesmo movimento através dos séculos. Em outras palavras, a imprevisibilidade desses fenômenos assumida pelos órgãos públicos, não é tão imprevisível assim. Já o outro fator que possui uma relação causal com o nosso dilúvio é aquele que os jornais, revistas, sites de notícias, blogs e “proseadores” de boteco gostam de falar: o descaso da administração pública. Sim! Adoramos falar mal dos governantes e governos! Se Carl Jung estivesse por aí esses dias, ele com certeza diria que nossos antepassados tiveram muitos motivos para criticar os governantes, e por essa razão nós mantemos essa prática. Claro, não posso negar que muitos políticos e homens públicos de hoje corroboram para que esse particular do inconsciente coletivo permaneça por toda a eternidade! Mas voltando à questão das inundações, vejo que existe uma falta de planejamento dos órgãos responsáveis relacionado ao preparo para enfrentar esse tipo de “anormalidade” das chuvas, além do que, em muitos lugares nunca existiu uma política clara de zoneamento capaz de identificar áreas suscetíveis a esse tipo de catástrofe.
Mas depois de ter citado esses dois fatores que, em minha opinião, são os principais colaboradores para a tragédia que vimos, os meus poucos leitores perguntarão: “Mas o que você disse até aqui, nobre escritor, que nós ainda não sabíamos sobre essa situação?”. Respondo-lhes: Tenho que admitir que cheguei atrasado a essa notícia; depois que “inventaram” esse negócio de Agenda Setting, não temos mais sossego! Mas, de fato, ainda tenho uma constatação “nova” e interessante sobre as inundações. Na verdade, uma constatação relacionada a como diversos blogs através da internet divulgaram essas notícias. Percebi que sempre que a notícia de inundação era relacionada a alguma cidade paulista, os termos “descaso do governo”, “incompetência dos políticos que estão há dezesseis anos no poder” e algumas outras coisas do tipo se repetiam de uma maneira enfática nos artigos. Já quando a notícia era relacionada a alguma cidade carioca, nos mesmos blogs se observavam os termos “tragédia natural”, “volume de chuvas muito acima do esperado”, “fenômenos climáticos implacáveis” e mais argumentações da mesma ordem. Com isso, eu me pergunto: Será que a natureza só “ataca” os Estados governados pela aliança PT-PMDB? E de outro lado, o que os governantes do PSDB fizeram para que a “ira” da natureza não vingasse sobre as suas cidades? Será que existe algum culto pagão promovido pelos tucanos aos deuses da natureza? De fato, o que faltou por parte de diversos meios de comunicação foi uma consternação verdadeira pelas vidas perdidas com os desastres, independentemente em que Estado aquelas ocorreram.
Aliás, essa questão de partidos políticos me lembra que um amigo esta semana me perguntou se eu estava contente com a situação política atual no âmbito federal. Sinto-me bem! Tão bem quanto um republicano nos Estados Unidos se sentia bem na época de Franklin D. Roosevelt! Mas na semana passada, vi algo que gostei nesse sentido, o governo federal fará um corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011. Sim leitores! E esse corte será nominalmente maior do que todos os cortes no orçamento realizados na era Lula! Sim, adoro quando as pessoas são imersas na realidade! Os gastos estão elevados, a inflação está subindo, a dívida pública aumentando, a fumaça começou a subir, disparou o alarme central; as pessoas saem correndo para apagar o fogo! Não importa o partido político, as ideologias, o antigo chefe, nada! Mas sobre esse assunto do corte, terei uma opinião formada apenas no final do ano. Isso porque, como vi escrito em um jornal outro dia, muitas vezes o nosso governo lembra aquele Dr. Strangelove do filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. Assim como o Dr. Strangelove tinha um “tique nervoso” em seu braço mecânico que o levava a fazer de vez em quando a saudação nazista involuntariamente, o nosso governo às vezes tem alguns “tiques nervosos” de extrema esquerda que o levam a tomar atitudes estranhas no decorrer da estrada retilínea que ele percorre (ao menos foi assim na era Lula). Em suma, temos que observar se essa contenção de gastos não será afrouxada no decorrer do ano.
Já para concluir esse artigo, não poderia deixar de citar a queda de Mubarak no Egito e a insurreição popular que está ocorrendo no Oriente Médio. De fato, conforme eu li em um editorial do El País esta semana, e ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é “a biografia dos grandes homens que fazem a história do mundo”. No entanto, esse mesmo artigo repreendia duramente o ocidente por não ter apoiado os movimentos populares desde o início, com o receio de que as manifestações estivessem sendo sustentadas por algum grupo islâmico radical. O editorial citava que um povo, uma vez liberto de um tirano, não aceitará se submeter a outro. Não concordo com esse particular; nem eu, nem os franceses do início do século XIX! O problema desses editoriais de jornais, por melhor que eles sejam, é que eles raciocinam de maneira linear. Porém, a verdade sobre essa situação é que o mundo não terá que aprender a lidar com um Egito democrático ou autoritário, mas sim, com um Egito diferente em relação aos últimos trinta anos.